
Queridos leitores, na nossa última conversa, exploramos um pouco do tema das commodities, essas matérias-primas essenciais que compõem a base da economia global. Vimos como eventos climáticos, decisões políticas e oscilações da oferta e demanda podem transformar o preço do petróleo, da soja ou do café, impactando o microuniverso da nossa vida com o preço o pãozinho da padaria, combustível etc. No entanto, há outro elemento, igualmente poderoso, que também nos afeta silenciosamente: a taxa de câmbio. Muitas vezes, podemos nos perguntar: por que a alta do dólar costuma encarecer tantos produtos no mercado brasileiro? Como o câmbio altera o ciclo inflacionário do país? Essas são perguntas que vou procurar responder na coluna de hoje.
O câmbio, meus amigos e minhas amigas, é mais do que dados e estatísticas nos jornais econômicos. Ele conecta os preços globais e os preços domésticos. Quando o real se desvaloriza em relação ao dólar, os produtos importados, incluindo as commodities que são usadas na produção brasileira, tornam-se mais caros. Esse encarecimento então, pressiona as empresas, que se veem obrigadas a repassar esses custos ao consumidor. Tecnicamente, os economistas chamam esse repasse de pass-through cambial.
Muitas empresas brasileiras que possuem o custo em dólar, sentem a desvalorização no caixa, como mostra a reportagem abaixo.

Este é um exemplo emblemático: companhias como Gol e Azul, que têm boa parte dos custos atrelada ao dólar — como leasing de aeronaves e, principalmente, combustível — viram as despesas dispararem quando o real se enfraqueceu em relação dólar, corroendo as margens de lucro. Outro caso foi o da indústria de alimentos, que depende da importação de insumos, embalagens e medicamentos veterinários. Quando o dólar sobe, o custo da produção se eleva, e nem sempre é possível repassar isso integralmente ao consumidor sem perder competitividade no mercado interno. Resultado: queda nos lucros e pressão sobre os resultados trimestrais.
Por outro lado, quando o real se desvaloriza, o câmbio é benéfico para os exportadores. As companhias voltadas ao mercado externo, como produtoras de grãos, carne e minério, tendem a direcionar maior parte da produção ao exterior. Afinal, com o dólar mais forte, a receita com as exportações aumenta. Contudo, temos um lado negativo que corrobora com a inflação, pois isso reduz a oferta de produtos no mercado interno, o que leva a um aumento dos preços no país. Fato este observado em alguns episódios recentes, como a alta do preço do arroz e da carne, quando produtores priorizaram as exportações diante da valorização do dólar, fazendo com que o consumidor brasileiro pagasse mais caro por esses alimentos.

Dessa maneira, o câmbio pode afetar a inflação não apenas pela via dos custos, como também pela escassez interna gerada pelo redirecionamento da produção ao mercado mundial. Compreender essa dinâmica do câmbio é enxergar como decisões e eventos globais repercutem no nosso cotidiano. A oscilação do câmbio não é um fenômeno distante, restrito aos escritórios de grandes empresas ou às bolsas de valores. Ela chega até a feira do bairro, pesa no preço do feijão, encarece o combustível e impacta até a passagem do ônibus. Entender como funciona esse tal de pass-through — o repasse das variações cambiais para os preços — é, na prática, compreender por que o nosso dinheiro parece render menos em certos momentos. E, mais do que isso, é ganhar clareza para fazer escolhas melhores: na hora de consumir, investir e até votar.
Fico por aqui! Espero que este texto tenha esclarecido situações de como o câmbio, silenciosamente, interfere na nossa vida. E, na próxima vez que ouvir que o dólar subiu, lembre-se: esse número influencia mais do que noticiários econômicos, ele bate direto na porta do nosso orçamento.
Um forte abraço.